Com o início das operações de open banking — ou open finance — os bancos e instituições financeiras passaram a compartilhar dados sobre seus clientes. É de suma importância considerar, no entanto, a necessidade de interpretá-los a fim de identificar (e extrair) todo o potencial que oferecem, transformando-os em informações de qualidade.

 

O fato é que contar com esse tipo de informação significa compreender, de maneira cada vez mais precisa, o comportamento financeiro do consumidor e, assim, elaborar ofertas assertivas e personalizadas. Isso é possível por meio de processos de BI (Business Intelligence) envolvendo ciência de dados, modelos preditivos e IA (Inteligência Artificial) estruturados sobre a análise de milhões de transações.

 

É oportuno recordar, aliás, que na matéria Open Finance traz ofertas personalizadas aos clientes , publicada em outubro de 2021, apontamos que o futuro da oferta de produtos e serviços financeiros será estruturado sobre inteligência de dados — e, como veremos adiante, diversas operações entre bancos, instituições financeiras, empresas e fintechs vêm demonstrando que não há exagero em tal afirmação.

 

Informações enriquecidas

É o caso da recente aquisição, pela Apple, da fintech britânica Credit Kudos — que, em seu próprio website, afirma: “Nossos produtos inteligentes permitem que as empresas aproveitem o open banking para melhorar a acessibilidade e as avaliações de risco. Nossos insights preditivos são construídos combinando dados de transações e resultados de empréstimos. Nossos produtos ajudam os credores a otimizar a subscrição, melhorar a precisão na tomada de decisões e apoiar os clientes após a aquisição por meio de nossas ferramentas de engajamento.”

 

Ainda que, de acordo com a Forbes, existam algumas hipóteses sobre tal operação — introdução do Apple Card no Reino Unido, oferta de serviços BNPL (Buy Now Pay Later), ativação de pagamentos via Apple Pay ou aquisição de tecnologia e talentos —, é perceptível o interesse da empresa fundada por Steve Jobs por dados financeiros contextualizados, a fim de estruturar informações e enriquecê-las, ou seja, torná-las ainda mais valiosas.

 

Novos produtos e serviços

Outro exemplo: em novembro de 2020 a Mastercard concluiu a aquisição da Finicity, fornecedora líder norte-americana de acesso em tempo real a dados e insights financeiros. “Hoje é um grande marco, pois continuamos a desenvolver as soluções que atendem ao potencial do open banking”, disse na ocasião Craig Vosburg, então presidente da Mastercard para a América do Norte.

 

Em outras palavras, ao incorporar a tecnologia e as equipes da Finicity, a Mastercard fortaleceu sua plataforma de open banking para garantir e assegurar uma gama ainda maior de produtos e serviços, reforçando parcerias de longa data — assim como seu compromisso com bancos, instituições financeiras e fintechs em todo o planeta.

 

No Brasil

No Brasil, o Itaú Unibanco realizou, no mês de abril deste ano, três transações emblemáticas que não estão diretamente ligadas ao core business da instituição, mas à crescente necessidade de obter dados enriquecidos acerca das atividades empresariais de seus clientes. Assim, no dia 11, a Rede, empresa de processamento de pagamentos do banco, estabeleceu uma parceria com a Dooca Commerce, plataforma de criação de lojas virtuais da Locaweb, para atender as PMEs (pequenas e médias empresas) que fazem parte da base de clientes das duas empresas.

 

Já no dia 18 o Itaú anunciou uma joint-venture para distribuir seus produtos e serviços financeiros aos 40 mil clientes da empresa de sistemas de gestão Totvs. E, em 19 de abril, adquiriu 12,82% da plataforma Orbia, maior marketplace dedicado a empresários do agronegócio, que é controlada pela Bayer, Yara Brazil Fertilizantes e Bravium Comércio.

 

Deve-se considerar que organizações em todos os segmentos têm dedicado cada vez mais esforços para conhecer os hábitos de consumo de seus clientes. Essas transações, porém, indicam um momento significativo do mercado financeiro, no qual os bancos e outras instituições que têm acesso ao open banking adquirem ou se unem a empresas que processam informações para, dessa maneira, robustecer sua oferta de serviços e produtos. A parceria com a Dooca, por exemplo, prevê o lançamento de uma plataforma que dará suporte aos varejistas que desejam iniciar (ou ampliar) sua presença no mundo digital — e permite, ainda, que os comerciantes recebam o pagamento por cartão de crédito, Pix e boleto.

 

A joint-venture com a Totvs, de acordo com Marcos Cavagnoli, diretor de Cash Management e Open Finance do Itaú, lançará, um “painel de gestão financeira que terá uma visão mais apurada das finanças do cliente” — uma das dores mais comuns para usuários (gerentes financeiros, por exemplo), que têm de alternar a consulta entre sistemas de gestão e portais de banco.  E a participação na Orbia, que se destaca como marketplace para insumos e outros serviços agrícolas, tem, como objetivo, ampliar a capacidade de atendimento às demandas dos clientes por meio da oferta de soluções que possibilitem acesso a crédito de maneira eficiente e ágil.

 

A informação, per se, é importante — mas não basta

Pode-se afirmar, sem embargo, que instituições mencionadas ao longo desse artigo buscam, por meio de tais transações, manter a competitividade em meio a uma concorrência cada vez mais acirrada — e contar com informações de clientes, nesse sentido, é de extrema importância. Para que tal estratégia seja bem-sucedida, no entanto, é imprescindível que todos os dados obtidos sejam lapidados, a fim de que agreguem valor à informação e permitam o estabelecimento de ofertas de produtos e serviços financeiros cada vez mais assertivas — e personalizadas.