Não há maneira fácil de dizer isso, mas o aumento da taxa de juros no país, assim como a inflação e a redução de renda dos brasileiros, que estão cada vez mais endividados — além dos índices cada vez maiores de inadimplência — trouxeram grandes mudanças no cenário de crédito. E um dos aspectos mais emblemáticos nesse sentido é a postura cautelosa que bancos e instituições financeiras estão começando a adotar quanto à concessão de cartões de crédito.

 

O fato é que houve um aumento considerável na carteira de cartões de crédito de grandes instituições financeiras no período compreendido entre o início de 2021 até o momento. Mas essa situação deve mudar ao longo dos próximos meses, e a preferência dessas instituições, atualmente, é a concessão de cartões a clientes conhecidos — considerando que são operações usualmente sem garantias e com inadimplência.

 

Bancos digitais e fintechs enfrentam novo cenário

Deve-se observar, contudo, que uma das grandes questões do mercado financeiro atualmente é o efeito desse novo momento sobre bancos digitais e fintechs. Essas novas instituições, que surgiram em um período de baixa taxa de juros, estão lidando com um novo desafio — uma vez que muitas entraram no mercado por meio da oferta de cartões de crédito e conta digital, e ainda dependem principalmente dessas receitas (mesmo que venham se esforçando para diversificá-las).

 

De acordo com Jean Lopes, diretor de instituições financeiras da Fitch, agência de classificação de riscos, não houve tempo para os bancos digitais e fintechs realizarem cross selling com outros produtos (ao contrário dos grandes bancos) — e o resultado foi a queda de algumas dessas instituições na bolsa. É o caso do Nubank e o Banco Inter.  Deve-se ressaltar que o provisionamento do cartão de crédito assemelha-se ao do crédito pessoal. Seu giro, porém, é mais rápido entre a concessão do limite e o pagamento (ou não) — aspecto que requer mais provisões com frequência.

 

Os riscos da oferta única

O mercado financeiro atravessa um período que colocará à prova um dos objetivos dos bancos digitais: tornarem-se cada vez mais relevantes para o dia a dia de seus clientes (leia mais a respeito do tema aqui). Afinal, sua oferta se estriba, principalmente, na concessão de cartões de crédito, cujos custos de operação tendem a se elevar — mas não são necessariamente acompanhados pelas receitas.

 

Em que pesem as vantagens oferecidas por esse modelo de negócios, a tendência é que o cenário à frente empurre tais instituições em busca de novas receitas. E, diante dos riscos inerentes à oferta de um único produto ou serviço, uma alternativa interessante para bancos digitais e fintechs talvez seja ampliar, de fato, seu mix de ofertas e incluir opções que proporcionem um relacionamento mais longo — como crédito consignado e crédito imobiliário, por exemplo —, permitindo que se tornem a instituição principal de seus clientes.