Pouco depois de publicarmos nosso artigo sobre as tendências para o mercado financeiro em 2022 (leia aqui), o World Economic Forum divulgou a Global Risk Perception Survey 2021, cujo objetivo é rastrear as percepções de riscos globais de cerca de mil especialistas e líderes mundiais em negócios, governo e sociedade civil.

Alguns dados desse estudo nos chamaram a atenção, uma vez que corroboram nossa percepção quanto ao ano que está começando. É o caso da volatilidade consistente, no próximo triênio, para 41,8% dos entrevistados — aspecto que reforça nossas impressões sobre a utilização de instrumentos derivativos a fim de suavizar tal impacto.   

O desafio da covid-19

Há, porém, outros aspectos importantes que merecem ser destacados — como, por exemplo, as consequências da covid-19, que continuam a nos assolar. Essa crise sanitária de proporções inéditas aumentou a distância entre os países e elevou a desigualdade no planeta. Por exemplo, nos 52 países mais pobres, que detêm 20% da população mundial, apenas 6% dos cidadãos foram vacinados.

Esse gap brutal, vale ressaltar, coloca em risco as (necessárias) ações coordenadas para conter problemas globais como meio ambiente, vida em sociedade e até mesmo a segurança do mundo digital — entre outros.  Tal cenário de retrocesso em termos de cooperação entre as nações e aumento da desigualdade social reflete o ceticismo quanto aos anos que virão: de acordo com a pesquisa, apenas 16% possuem uma visão positiva/otimista:

Foco em meio ambiente e coesão social

Os maiores riscos apontados pelo estudo para os próximos dez anos, no entanto, relacionam-se ao meio ambiente (degradação da biodiversidade e questões climáticas) e à vida em sociedade. Vale ressaltar que, naturalmente, questões de crescimento econômico sempre estiveram à frente das preocupações após uma crise; as expectativas para a década que está por vir, entretanto, indicam uma mudança de paradigma nesse sentido. É interessante observar, ainda, que, as mudanças climáticas extremas estão no topo das preocupações de especialistas e líderes mundiais — enquanto as doenças infecciosas ocupam apenas o sexto lugar. Veja o gráfico:

É importante considerar que, em um período mais curto (2 anos), as questões econômicas ganham mais espaço — duas entre as dez primeiras colocações no ranking do levantamento realizado pelo World Economic Forum — enquanto os riscos ambientais e sociais permanecem entre as principais preocupações mundiais (gráfico abaixo).

Ações transformadoras

A preocupação com a degradação ambiental e eventuais fracassos para lidar com as mudanças climáticas lideram as questões relacionadas aos desafios que o mundo enfrentará nos próximos anos — e essa tendência indica, para todos os efeitos, uma compreensão mais profunda acerca da responsabilidade das instituições quanto à adoção de boas práticas de sustentabilidade e, principalmente, dos princípios de ESG (Environmental, Social and Governance).

Sob tal contexto é emblemático o compromisso, assumido por uma coalizão das principais instituições financeiras do mundo na COP26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), para destinar recursos com o objetivo de neutralizar as emissões de carbono nos próximos 50 anos. A conscientização sobre os desafios ambientais, é importante observar, tem feito com que empresas e organizações se posicionem claramente em relação a tais questões perante seus clientes e stakeholders.

Investimentos com propósito

E a importância cada vez mais evidente de contribuir com um mundo mais sustentável também reflete no crescente interesse sobre investimentos com propósito como, por exemplo,  títulos verdes ou green bonds, ativos que representam uma importante fonte de recursos para investimentos em projetos de energia renovável, eficiência energética, prevenção e controle da poluição, gestão de recursos naturais, conservação da biodiversidade, transporte limpo e gestão dos recursos hídricos e adaptação às mudanças climáticas, entre outros — além de produtos, tecnologias de produção e processos ecoeficientes —, proporcionando ganhos em termos de credibilidade e reputação a seus emissores (você já leu sobre isso aqui, não? ).

Responsabilidade socioambiental e ESG nas empresas

A Global Risk Perception Survey indica, portanto, a urgência dessas preocupações, assim como uma acentuada mudança de mentalidade. E essa nova percepção tem evidenciado, em empresas e ao redor do planeta, a crescente necessidade de fazer parte da vida de seus clientes e stakeholders por meio de ações que contribuam com a preservação do meio ambiente e a sociedade em que estiverem inseridas. Em outras palavras, isso significa que as organizações devem, cada vez mais, abraçar causas sustentáveis em toda a sua cadeia — assim como os princípios de ESG — para que mantenham sua relevância nos mercados em que atuam.

Leia a Global Risk Perception Survey 2021 na íntegra aqui.