Mesmo diante de um cenário promissor em termos de tecnologia e inovação, alguns desafios vêm se tornando cada vez mais evidentes — e com potencial até mesmo para colocar em xeque o futuro do planeta. A sustentabilidade, assim, tornou-se uma das principais preocupações mundiais — e alguns estudos apontam que tal aspecto está entre os maiores riscos para a humanidade nos próximos dez anos.

 

Paralelamente, a erradicação das desigualdades sociais, preconceitos e discriminações de qualquer espécie também entraram na pauta para o estabelecimento de uma sociedade mais igualitária e justa — assim com maior transparência nas relações de empresas e organizações com consumidores, governos, órgãos reguladores e toda sua cadeia de negócios. Surgiram, assim, os princípios ESG (Environmental, Social e Governance) — como você já leu aqui.

 

Um novo investidor

O fato é que isso trouxe novas alternativas ao investidor que leva em consideração seus ideais e crenças ao decidir onde aplicará seus recursos — uma vez que agora  pode optar por ativos que incorporem questões relativas ao meio-ambiente, bem-estar social ou governança.

 

Vale ressaltar que, segundo a PwC Global ESG Survey, 79% dos mais de 360 investidores ouvidos afirmam que tais práticas impactam na tomada de decisão de investimentos, enquanto 49% pretendem retirar recursos de empresas sem ações reais nesse sentido. Já para 75% dos participantes vale sacrificar a lucratividade de curto prazo pelos aspectos ESG.

 

Transparência e índices claros

Trata-se, portanto, de uma tendência crescente. Segundo a Global Sustainable Investment Alliance, no início de 2020 o volume global de investimentos, considerando os pilares ESG na seleção do portfólio, atingiu cerca de US$ 35,3 trilhões nos cinco principais mercados cobertos pelo estudo (Austrália, Canadá, Europa, Estados Unidos e Japão) — ou seja, cerca de 36% dos ativos sob gestão no mundo.

 

Contudo, um relatório do escritório Levy & Salomão, realizado com parte dos fundos da Anbima — considerando 22 dos mais de 140 fundos que se apresentam como sustentáveis —, indicou que 9% dos que trazem ESG ou sustentabilidade em sua denominação não incorporaram tais práticas integradas à política de investimento — enquanto  18% as adotam apenas parcialmente esses critérios ao descrever as diretrizes de onde investem seus ativos.

 

Esse cenário, no entanto, vem avançando positivamente. Nos EUA, por exemplo, a SEC (Securities and Exchange Commission) tem ampliado a transparência e a padronização da divulgação das medidas para definir métricas ESG — assim como o impacto desses indicadores sobre as estratégias de negócios das empresas de capital aberto.

 

O órgão norte-americano também apresentou, em abril deste ano, uma proposta em que exige a divulgação de informações sobre as emissões de gases de efeito estufa e outros impactos climáticos causados pelas empresas listadas no país.  É interessante destacar, ainda, que a SEC multou, recentemente, a divisão de gestão de investimentos do Bank of New York Mellon (BNY Mellon) em US$ 1,5 milhão por alegações enganosas sobre fundos que usam critérios ESG.

 

No Brasil

Ainda que o ESG no Brasil não seja parametrizado — ou seja, a avaliação desses critérios é subjetiva e apresenta variações —, essa situação deve mudar em breve.  Em dezembro do ano passado, a CVM publicou uma alteração das regras do Formulário de Referência ampliando a exigência de tais informações. Ressalte-se, porém, que o documento não possui caráter obrigatório, mas de orientação.

 

Esclarecimentos sobre ESG e clima foram, assim, explicitamente incluídos na nova resolução para que as organizações apresentem informações acerca dos aspectos sociais, ambientais, de governança corporativa e também climáticos, uma vez que que as consequências da mudança do clima representam um risco real. Esses dados, convém destacar, proporcionam mais transparência a investidores e stakeholders quanto à adoção de tais critérios.

 

A medida deve entrar em vigor em 2 de janeiro de 2023, a fim de que as organizações possam se preparar, técnica e corporativamente, para atender às novas determinações — e deve-se observar que, de acordo com a CVM, iniciativas mais robustas com foco em ESG e sustentabilidade não estão fora de questão. Afinal, indicadores definidos e transparentes são uma das prioridades dos órgãos reguladores ao redor do mundo.

 

Segurança e greenwashing

É interessante considerar que a regulação do relatório de sustentabilidade é obrigatória em 24% das bolsas mundiais; o Brasil, no entanto, ainda está entre os 76% que não preveem tal iniciativa. As novas regras do Formulário de Referência, porém, expressam a preocupação do país em relação à importância de assumir uma nova postura nesse sentido — além de proporcionar mais segurança aos investidores com propósito, ou seja, aqueles que aplicam seus recursos em causas que contribuam para a construção de um mundo melhor.

 

Tais medidas serão, portanto, extremamente oportunas para combater o greenwashing — prática na qual uma companhia apresenta seus produtos e serviços como sustentáveis quando, na verdade, não são. Afinal, quem investe de acordo com sua consciência deve avaliar se a empresa está, de fato, alinhada aos princípios ESG e à sustentabilidade — e, nesse sentido, uma avaliação crítica, por meio da análise dos relatórios e índices disponíveis da organização, atualmente, é a maneira mais eficaz para evitar dissabores.