É comum pensar que o surgimento de uma nova tecnologia decreta, automaticamente, o fim de um sistema que possui o mesmo objetivo. Em que pese o fato de que isso é verdadeiro em algumas situações (como, por exemplo, quando as câmeras digitais praticamente extinguiram as analógicas), o fato é que previsões nesse sentido são sempre arriscadas.

 

Um dos exemplos emblemáticos nesse sentido é a utilização de cheques — que, apesar de diminuir ano após ano, ainda é uma realidade para muitos brasileiros, mesmo que diante de alternativas mais avançadas do ponto de vista tecnológico como cartões de crédito e débito, DOC, TED (que completa 20 anos este mês), carteiras digitais e, nos últimos anos, Pix.

 

Sobrevivendo ao mundo digital

De acordo com levantamento realizado pela Febraban, cerca de 219 milhões de cheques circularam pelo país em 2021. Ainda que esse total represente uma queda de 23,7% em relação a 2020 (287,1 milhões) e 93,4% (3,3 bilhões) quando comparado a 1995 (ano em que a economia brasileira passava por período de estabilização), é um número respeitável — principalmente em uma era de transformação digital acelerada pela pandemia de covid-19.

 

Garantias, pré-datados, redução de custos e acesso à internet

O fato, portanto, é que os cheques resistem — e é possível elencar diversas razões para esse cenário. Em vendas de veículos, por exemplo, é comum que as concessionárias peçam cheques como garantia até a aprovação do financiamento da operação. Outra situação comum ocorre em transações envolvendo imóveis, nas quais os cheques são utilizados como caução para a entrada ou primeiro aluguel em imobiliárias.

 

Mesmo que à primeira vista pareça que o uso dos cheques hoje em dia é mais comum em transações de alto valor agregado, muitos profissionais liberais, empresas e comerciantes ainda os aceitam porque seus clientes estão habituados à modalidade — e isso inclui a opção de descontá-los em determinadas datas (pré-datados). Há, ainda, a possibilidade de evitar o custo operacional pela utilização de máquinas de cartão, além das taxas cobradas pelas empresas que fazem parte da cadeia de pagamentos.

 

Existe, porém, outro fator que mantém a modalidade como alternativa factível: a ausência de infraestrutura de telecomunicações em determinadas regiões do país e, por consequência, a impossibilidade de acesso à internet. Aqui é interessante destacar que, entre as funcionalidades previstas no roadmap do Banco Central para o Pix, está a possibilidade de realizar pagamentos off-line (já abordamos o tema em nosso blog. Leia aqui).

 

Características específicas

Ainda que a utilização de cheques diminua a cada ano, é precipitado afirmar que acabará — mesmo com o surgimento de novos meios de pagamento. Afinal, por diversos fatores, trata-se do método preferido por um número expressivo de brasileiros. A tendência, portanto, é que essas modalidades coexistam — uma vez que possuem características próprias e oferecem vantagens específicas.